O HQ 129 X e a musica fractal dos sapos da Afonso Pena.

 O HQ 129 X e a musica fractal dos sapos da Afonso Pena.

José Bezerra Marinho

O primeiro e mais constante som da minha infância, vinha do quarto ao lado ao que eu nasci. O do receptor HQ129 X do meu pai, radioamador.

Cresci com aquela música, ruídos, encantamento ao saber que dali, daquele seu quartinho, ele falava e ouvia o mundo. Minha mãe me lembrava sempre que, no dia que nasci, meu choro – que ele chamava QRM, código de interferência no jargão de rádio – foi mandado por ele para os seus colegas pelo mundo afora. Quando soube disso fiquei todo metido. Só depois fiquei insuportável.

A chuva que, desavisadamente, desabava nas noites da Afonso Pena, trazia com ela a musica fractal dos sapos, redivivos, no leito de uma avenida que virava lagoa durante a noite entre Açu e Mossoró, não os rios, mas as ruas do Tirol.

Como era possível? Na cabeça do menino de minha saudade não havia resposta. Até ontem não havia chuva, não havia lagoa, não havia sapos. De onde eles vinham? Como sabiam que a lagoa se formara?

Seco, alto, aos meus olhos enorme, com vastas mãos, meu pai explicava: “estavam aí”, apontando do terraço da casa para a rua. Estado latente, quietos, esturricados, ainda mais feios, mas vivos. Era isso que importava.

Independente de chuva e sapos, todos os dias a manhã se anunciava ao som de madeira sendo serrada.

Em frente, exatamente em frente à minha casa, a serraria de Plínio Saraiva. A madeira gemia ao encontrar a serra. Um gemido mais baixo que ia num crescendo até a tora ser vencida. A madeira serrada era posta em pequenas caixas que eram entregues nas casas. É, esconder pra que?  Naquele tempo, a maioria dos fogões domésticos era a lenha.

Havia algo de irreal, custei mesmo a acreditar, quando pela primeira vez ouvi Aluízio Menezes narrando um ABC e América, gritar gooooooll, sem que antes tivesse ouvido a explosão da frasqueira da geral do “Estádio” – e haja boa vontade – “Juvenal Lamartine”.

Sons das tardes de Domingo, ABC e América, noites de quarta feira, Riachuelo e Atlético, sempre havia um coro, ohhhhh, nas bolas perdidas, e explosão apoteótica num gol de Cezimar, ou Saquinho, ou Jorginho, ou Alberí.

Alguém aí sabe o que é avião “pedindo carro”? Esse era outro som mágico. O avião de João Pinheiro “pedindo carro”. Chegando a Natal, o aviador e seus passageiros pousariam em Capim Macio e precisavam de um “carro de praça”. Meu vizinho, João sobrevoava sua casa e a baixa altitude, balançava as asas e rraumrraumava o motor, era o sinal. D. Cleide ia pra minha casa e ligava para o 2100 ou 2300, e pedia um “carro em capim macio para João Pinheiro”.

O fim da tarde chegava com Cambraia anunciando o “Jornal de Natal” de Djalma Maranhão.

Cambraia, perfeito biótipo e porte de um príncipe banto, soltava uma cantiga que, muitos anos depois, penso ter reconhecido em Catoca, nas Lundas, no coração de Angola.

Mas aí eu já tinha crescido, os sapos haviam sido expulsos pelo asfalto e havia visto quando meu pai, poucos dias antes de sua morte, desligou para sempre seu HQ 129 X.

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